Por quê viajar sozinho?
Quando está sozinho, você se abre mais para as pessoas. Primeiro nasce uma ânsia de se comunicar, afinal ninguém consegue passar horas ou dias a fio sem falar com ninguém a não ser quando a proposta é essa,como em retiros espirituais. Por outro lado, as pessoas se sentem mais à vontade para se aproximar de você, pois não há a barreira do grupo. Depois você precisa saber onde dormir e comer ou onde fica a trilha para a montanha. Daí, passa um sujeito simpático, você pede uma informação e, conversa vai, conversa vem, de repente você está encostado no fogão dele tomando um cafezinho ou desfrutando do almoço da família.
“Pessoas são pessoas em qualquer lugar.Mas, às vezes, no cotidiano, a gente perde essa dimensão humana. Viajando você desperta o novo no olhar”, diz o oceanógrafo paulista Antônio Soares, que não se lembra de ter feito alguma vez na vida uma viagem em grupo.“Em hipótese alguma vejo como uma fuga.Viajo sozinho para encontrar pessoas e me encontrar através delas. Quando estamos em grupo há uma identidade definida, um código de conduta. Agora, viajando sozinho, tem a descoberta de o que eu posso oferecer ao outro. Acaba sendo uma descoberta para mim também”, diz Antônio.
Tão encantador quanto a facilidade de se conectar com as pessoas é o desapego a elas. “Você começa a ter uma outra dimensão do sentido de o que é conhecer e se despedir de pessoas”, diz Argus, o arquiteto que deu a volta ao mundo de bicicleta. No Irã, ele passou uma noite acampado na beira de um rio.Ao lado,morava um casal de velhinhos que, gentilmente, o convidou para tomar chá e ofereceu café da manhã no dia seguinte. Não falavam a mesma língua, só se entendiam por sorrisos. E ainda assim, quando Argus se preparou para partir, o senhor chorou como se o conhecesse há anos. “Faz parte da viagem saber partir, senão você não vai nunca”, diz o arquiteto.
E, mesmo quando você não ruma para um novo destino, saber se despedir das pessoas que você conhece ao longo da viagem é seguir independente. Se no primeiro dia você se entrosa num grupo e começa a acompanhar religiosamente a programação deles, acaba recriando a redoma de proteção que você tem em casa ou nas viagens em grupo. Muito bom se relacionar com as pessoas. Melhor ainda se isso não se tornar uma dependência. Pois no dia seguinte virão novas histórias com novos personagens. E assim a viagem volta ao início, à espera de um novo acaso que mude o dia, a semana, as férias e, no limite, a própria vida.
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